quarta-feira, 3 de março de 2010

- Conversando, Caio.

Veja, Caio:

Há muitos

Não devem ser todos juntos

Não podem ter todos par

Não ousam querer o mesmo!

(- Ousam?)


Todos colados

Em fileiras simetricamente desalinhadas

Filas que se beijam em dois espelhos frente a frente

Sem um que o valha

Sem um que me seja

Sem um que procure nestes dias azuis

Um’outra solidão igual a sua

Pra na matemática sem sentido do amor

Faça somar as dores e haver menos dor de resultado.

Pra fazer menos sofrido esse nosso acordar deste sono de ser só que nunca passa.

(- O eterno bocejo)


A cada passo, Caio,

Vejo menos gente ao meu redor

(- Algum dia estiveram contigo?)


A cada tropeço, Caio,

Menos tensiono-me a levantar.

(- E se for, afinal, o chão o que tens de beijar?)

domingo, 10 de janeiro de 2010

- Perguntas que o manual não responde.

Por que eu não consigo ver as pessoas felizes
realmente felizes, com as pequenezas de suas vidas,
sem ficar com um frio colossal na barriga?

Que diabos é isso?
Inveja?
Culpa?
Mágoa?
Rancor de sei lá quem?
Tristeza de sei lá quando?

De onde vem isso? Da cabeça,
do figado, do coração?

De onde vem essa ânsia de viver o que eu não sou?
De onde vem essa ânsia de ser o que eu não viverei?

De onde brota?
De onde floresce, flor de velório?
Eu quem as rego,
são as lágrimas turvas de antes?
É o choro contido de agora?
Ou a resignação seca que virá?

Me acalmei.
Tomei um copo de água vazio.
Procurei no indíce remissivo.
Último verbete.
Abri na página 134.



Ela estava em branco.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

- Pulp Fiction.

Mia: Don't you hate that?

Vincent: What?

Mia: Uncomfortable silences. Why do we feel it's necessary to yak about bullshit in order to be comfortable?

Vincent: I don't know. That's a good question.

Mia: That's when you know you've found somebody special. When you can just shut the fuck up for a minute and comfortably enjoy the silence.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

- Todo poeta morto escreve um epitáfio em vida.

Este é o último dia da minha vida.

Estes são os últimos versos rápidos de caligrafia tremida pelo balançar do carro que tensiono a escrever.
Este e os outros versos breves e sem par que escrevi,
Assim como a vida breve e sem par que vivi,
São minha herança impar e parca,
Que deixo sem remorso para este mundo cão sarnento,
Que me coça para fora dele.
Este é meu último grito mudo e abafado pela mão de deus
Tentando avisar sei lá quem que se interesse
De que

Este é o ultimo dia da minha vida.

Um dia, estes versos farão sentido.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

- Outonal.

Enquanto o mundo todo vai aí
Respirando começo de noite de sábado de carnaval,

Eu vou levando, sem pressa,
meu olhar carregado de neblina
das manhãs de um domingo de outono.

- Invernecendo.

Pouco importa o tempo
A qualquer momento
Eu inverneço em cada esquina
de Natal a Porto Velho.

Se sair sol forte,
eu enublo o olhar,
deselenço a mão da tua,
e sigo eu e a sorte.

domingo, 29 de novembro de 2009

- Sem Título.

Estou me matando.
São decisões que nos matam.
Mas nada nunca morre.
Só muda.
Estou me mudando.
Pra outra coisa que eu não sei quem é.

Então, me deixa tentar.

sábado, 28 de novembro de 2009

- Fernando Pessoa.

Não tenho ninguém em quem confiar. A minha família não entende nada. Não posso incomodar os amigos com estas coisas. Não tenho realmente verdadeiros amigos íntimos, e mesmo aqueles a quem posso dar esse nome no sentido em que geralmente se emprega essa palavra, não são íntimos no sentido em que eu entendo a intimidade. Sou tímido, e tenho repugnância em dar a conhecer as minhas angústias. Um amigo íntimo é um dos meus ideais, um dos meus sonhos quotidianos, embora esteja certo de que nunca chegarei a ter um verdadeiro amigo íntimo. Nenhum temperamento se adapta ao meu. Não há um único carácter neste mundo que porventura dê mostras de se aproximar daquilo que eu suponho que deve ser um amigo íntimo. Acabemos com isto. Amantes ou namoradas é coisa que não tenho e é outro dos meus ideais, embora só encontre, por mais que procure, no íntimo desse ideal, vacuidade, e nada mais. Impossível, como eu o sonho! Ai de mim! Pobre Alastor! Oh Shelley, como eu te compreendo! Poderei eu confiar em minha mãe? Como eu desejaria tê-la junto de mim! Também não posso confiar nela. Mas a sua presença teria aliviado as minhas dores. Sinto-me abandonado como um náufrago no meio do mar. E que sou eu senão um náufrago, afinal? Por isso só em mim próprio posso confiar. Confiar em mim próprio? Que confiança poderei eu ter nestas linhas? Nenhuma. Quando volto a lê-las, o meu espírito sofre percebendo quão pretensiosas, quão a armar a um diário literário elas se apresentam! Nalgumas até mesmo cheguei a fazer estilo. A verdade, porém, é que sofro. Um homem tanto pode sofrer com um fato de seda como metido num saco ou dentro de uma manta de trapos. Nada mais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sexta-feira, 13.

Passei horas no banco de manhã.
Pra nada.

De tarde, quase desmaiei.
Minha pressão estava baixa, eu estava nervoso porque não havia recebido dos meus dois ultimos emprego, e não tinha como comprar um presente pra minha mãe, que faz aniversário no domingo.

Meu trabalho foi tranqüilo,
fiz o de sempre, acho que bem feito.

Agora de noite, o Everton me ligou.
Fui no cinema com ele e com a Lais.
Assisti 2012.
O filme é bom, algumas incongruencias, mas bom.

Depois, demos uma passada num barzinho.
Hetero.
Mas que tinha um monte de moleque viado.
Acho que eu tive o meu primeiro ataque de pânico.
O Everton queria sentar,
mas eu fiquei em ar, fiquei gelado, só pensava em sair dali.
Forcei minha saída, e o Everton não gostou muito.
Paciencia.

Ele procurou um outro amigo dele,
que mora na rua da minha casa.
Sempre vi ele, em um monte de lugares,
sempre achei lindo, mas nunca pensei que fosse gay.

Eles foram pra um bar.
E eu fiquei em casa.

As vezes, a melhor forma de evitar o sofrimento é evitar lugares onde você fatalmente vai sofrer.
Foi o que eu fiz.