terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quem pode ter orgulho de ter orgulho

Vez ou outra alguns discursos se repetem. Repetem afirmações sem fundamentação, sem embasamento teórico, sem lógica e, principalmente, sem racionalidade. Um destes discursos questiona o direito das minorias de manifestar publicamente seu orgulho de ser o que são, reivindicando pra si o mesmo direito. Durante a realização da Parada do Orgulho Gay do ano passado, em São Paulo, um grupo de ignóbeis manifestantes apareceu na Avenida Paulista com faixas e cartazes dizendo ter ‘orgulho de ser hetero’.

A discussão é antiga. Nazistas e seus pares modernos, fascistas, xenófobos, racistas e outros agrupamentos de pessoas intolerantes clamam o direito de usar camisetas com as inscrições ‘100% Branco’ ou ‘Orgulho de ser branco’, em detrimento aos manifestos do movimento negro. Estes usam roupas e adereços que remetem a seus antepassados africanos, preservam sua cultura, suas tradições e cantam pra todo canto o orgulho que tem em serem negros.

E o que garante aos negros o direito de ter orgulho de assim serem? O fato de que, na verdade, eles não têm este direito garantido. Por séculos, pessoas foram arrancadas de suas casas, de suas famílias, de seus países, jogadas nos porões de navios, atravessando um oceano para trabalhar de forma escrava em uma terra que não era deles, apenas porque a cor de sua pele não era clara como acreditavam ser a certa por seus ‘donos’. A etnia negra tem todo o direito de ter orgulho de algo que nunca tiveram: de ser quem são. Os brancos não precisam lutar por direito qualquer, porque eles já tem todos, já que nossas leis foram feitas de brancos pra brancos, de maneira geral.

A regra vale para a Comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transgêneros e Transexuais). Como nossas leis foram escritas, votadas e executadas por heterossexuais, os mesmo não têm o que reivindicar. O direito de expressão dos heterossexuais existe desde sempre, já que vivemos em uma sociedade heteronormativa, onde é ensinado e transmitido culturalmente que a heterossexualidade é a única orientação sexual ‘natural’, enquanto as demais são apenas ‘opções’ ou ‘desvios’. Não há motivo de luta por orgulho, espaço ou direitos heteros.

Assim como os negros, gays, lésbicas e afins têm de ir para o embate. Não temos direito de casar ou de se unir com nossos parceiros, não temos segurança em sair nas ruas demonstrando afeto por nossos namorados sem medo de apanhar de homofóbicos. Se formos afeminados, não temos direito de ousar em sonhar em empregos que não sejam de maquiador, cabeleireiro, estilista. Se sofrermos agressões morais ou físicas, nossos agressores não serão punidos adequadamente. Precisamos protestar, gritar, fazer greves, passeatas, caminhadas, vigílias, ações educativas, ações sociais. Precisamos ter orgulho. Orgulho de sermos gays, lésbicas, trans. Precisamos ter tanto orgulho de sermos quem somos, que um dia, não precisaremos mais gritar pra sermos ouvidos, parar avenidas para sermos vistos e para termos nossos direitos respeitados. Neste dia, teremos orgulho de sermos humanos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Homossexualidade não existe.













"Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade - voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade".

(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um manifesto contra a lei da homofobia (e todas as outras leis)













Neste meu pouco tempo de ativismo LGBT (cerca de um ano pela internet), e devido principalmente ao meu quase tão recente outing (cerca de cinco anos), não esmoreci. Com 25 anos, ainda acredito na força da mudança advinda da manifestação popular, desde que justa de propósitos, como a luta pelos direito da comunidade gay. União civil entre pessoas do mesmo sexo, adoção homoparental, criminalização da homofobia: todas as demandas válidas, pois defendem os direitos e a dignidade de uma parcela de brasileiros que vivem a margem da lei, em uma twilight zone da cidadania.

O problema é que muita gente pensa o contrário. Os argumentos usados são diversos e passam desde que as novas legislações estariam criando aberrações jurídicas, dando benefícios que o resto da sociedade não tem, ao mais comum, que diz que as leis criariam uma ‘mordaça gay’, onde religiosos não poderiam mais criticar abertamente a ‘prática do homossexualismo’ impunemente. Ambos os argumentos tangem em um mesmo ponto: gays não precisam de legislações que defendam seus interesses pois já são protegidos pela legislação que protege o resto das pessoas ‘comuns’. Ou seja, devemos confiar no bom senso das pessoas, e tratar crimes motivados por preconceito de orientação/identidade sexual como crimes ‘comuns’.

No fundo, acho que concordo com estas pessoas. Gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgeneros não precisam de uma legislação específica que defenda seus interesses. A partir de agora, deixarei de lado esta campanha besta para a aprovação da PL 122, que criminaliza a homofobia. Devemos seguir o conselho dos reacionários e religiosos radicais e parar de lutar por este direito que não nos pertence. Devemos confiar no bom senso das outras pessoas quanto ao preconceito.

A partir de agora também, lanço outro desafio. Vamos lutar para que o congresso retire todos os direitos constitucionais individuais de todos os cidadãos. Vamos confiar no bom senso dos brasileiros. Que os religiosos, os mais fervorosos nas críticas aos projetos de lei que defendem os interesses dos LGBTs, abram mão dos artigos da constituição que defendam a liberdade de crença, o livre culto. Neste país, as liberdades religiosas sempre foram respeitadas, especialmente a dos cristãos protestantes e das religiões afro-descendentes. Ninguém nunca foi morto, preso, humilhado e proibido de praticar seu culto no Brasil. Vamos confiar a vida e a dignidade dessas pessoas nas mãos de pessoas que sempre respeitaram o direito de crer das outras pessoas e nunca censuraram nenhuma demonstração de fé diferente da sua.

Também acho que os negros não precisam de leis, de verdade. Apaguemos a palavra racismo e qualquer outra coisa que faça referência a discriminação étnica e racial. No Brasil, raramente um crime é motivado por preconceito relacionado ao tom da pele da vítima. Um homicídio é um homicídio. Uma agressão é uma agressão. A violência contra negros é predominante, mas isso não tem nada a ver com o fato deles serem negros, não é? Ninguém nunca foi morto, preso, humilhado, torturado, apenas por ser negro. Vamos confiar a vida e a dignidade dessas pessoas nas mãos de pessoas que nunca escravizaram e subjugaram baseados apenas na cor de pele de um ser humano.

Para as mulheres, que se apliquem as mesmas regras que para os homens. Nossa sociedade sempre foi justa, independente do gênero. Mulheres sempre puderam trabalhar, estudar, e até votar e serem votadas em nossa história. Sempre receberam os mesmos salários de homens em cargos semelhantes, sempre tiveram suas integridades físicas e psicológicas intactas dentro de casa e nunca sofreram com o machismo e a misoginia. Que haja uma lei para ambos os sexos. Vamos confiar a vida e a dignidade de nossas mulheres pessoas nas mãos de pessoas que nunca as trataram como sexo frágil, como seres humanos menos inteligentes, menos capazes e menos competentes.

A argumentação poderia se estender por milhares de caracteres, onde cairiam por terra séculos de conquistas civis de deficientes físicos, idosos, nordestinos, crianças, categorias profissionais discriminadas, e outras dezenas de minorias, que somadas, tornam-se maioria. Em um universo ideal, nenhuma minoria precisaria de leis que defendessem seus direitos básicos. Todos se respeitariam.

Mas nosso mundo cheio de falhas de caráter, falta de educação formal e formação moral, nós, gays, precisamos sim de leis que nos protejam de ações de grupos extremistas, de pessoas intolerantes e de ideologias discriminatórias, enquanto ações positivistas e educacionais não tem efeitos práticos. Precisamos de punições exemplares pra quem agride um homossexual apenas por ser homossexual, para quem demite um empregado após descobrir que ele não é heterossexual, ou para quem humilha um jovem na escola por conta de sua sexualidade. Para o bem da comunidade LGBT. Para o bem de toda a sociedade.

domingo, 21 de novembro de 2010

Militância LGBT e a Síndrome de Mulher de Malandro

O carioca Ferruccio Silvestro, depois de ser brutalmente agredido na saída de um bar gay, em Niterói (RJ)


Por dois dias inteiros, a hashtag #HomofobiaNão esteve entre as mais citadas no Twitter do Brasil. Por quase um dia inteiro esteve no topo desta lista, figurando nos trends mundiais, dando visibilidade à manifestação promovida por ativistas dos direitos LGBT e simpatizantes da causa, em referência aos ataques sofridos por homossexuais em São Paulo e no Rio de Janeiro durante a última semana. E de que esta visibilidade valeu ao combalido movimento de defesa dos direitos dos homossexuais e afins? Praticamente nada.

A visibilidade que a internet dá aos assuntos no Brasil é muito grande. Hoje, o Twitter e seus assuntos mais comentados pautam as redações dos veículos de comunicação tradicional, fenômeno que ficou claro durante as eleições deste ano, mais recentemente com o caso da bolinha de papel que atingiu o candidato derrotado a presidência, José Serra. Ganhar visibilidade na rede é importante, sem dúvida, mas a militância LGBT se reduz a praticamente este campo, e a explicação é simples: gays, de maneira geral, não protestam por seus direitos de forma efetiva. A prova deste lamentável fenômeno se explica por duas manchetes, ambas do site G1:

21/11/2010 - Manifestação contra homofobia reúne 200 pessoas na Avenida Paulista

14/06/2009 – Mais de três milhões participam de Parada Gay em São Paulo

Explicando.

Quando o evento é festivo, onde a Avenida Paulista se enche de DJs, drag queens e trios elétricos, milhões de homossexuais de São Paulo e dezenas de outros estados lotam as ruas da cidade, na maior micareta gay do mundo, que ano após ano vem perdendo sua significação.

Agora, se o evento tem realmente um caráter de protesto, onde os gays têm um espaço para buscar visibilidade na nossa mídia (onde somos quase transparentes), apenas 200 pessoas aparecem para gritar contra os absurdos ocorridos em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Esta falta de engajamento político e social da grande maioria dos homossexuais me faz acreditar que, na verdade, sofremos da “Síndrome da Mulher de Malandro”: gostamos de apanhar, gostamos de ser humilhados na escola, no trabalho, gostamos de ser tratados como aberrações por parte de grupos religiosos fanáticos, gostamos de ter nossos direitos civis extirpados, gostamos de não poder ter uma união civil estável com nossos parceiros, gostamos de sofrer bullying. Gostamos de humilhação. Gostamos de degradação. Gostamos de ser viadinho, boiola, baitola, bichinha, pederasta, sodomita. Gostamos de soco na boca, de lâmpada na cara, de chute nas costelas. Somos “mulheres de malandro” dos skin-heads, dos fascistas, dos neonazistas, dos preconceituosos e homofóbicos em geral.

Não vejo outra explicação além do comodismo, ou quem sabe o medo da violência, injustificado, pois a violência já está aí, batendo em nossas portas e na cara de nossos iguais. Em qualquer grupo social oprimido há a busca por direitos, por respeito e por dignidade. Em qualquer grupo que sofre, o sofrimento de seus iguais toca a todos, que se engajam na luta, de mãos dadas por um ideal em comum.

Mas não funciona assim com a comunidade LGBT, se é que é justo usar o termo comunidade para definir esse agrupamento de pessoas que, em comum, parecem ter apenas a orientação sexual. Pra gente, parece que nossa existência como LGBTs não tem nada a ver com a existência como LGBT de nosso vizinho. A morte de outro gay, apenas por ser gay, não nos afeta. A violência, como a que sofreu o carioca Ferrucio Silvestro, em 2007, que foi covardemente espancado na saída de uma balada, apenas por ser gay, não nos afeta. A demissão de nossos amigos gays, apenas por serem gays, não nos afeta. Tudo segue em nossas vidas tacanhas e individualistas.

Os poucos que saem do armário pra militância são chatos, desagradáveis, inconvenientes. Aqueles que lutam pela aprovação do Projeto de Lei 122/2007, pela união civil entre pessoas do mesmo sexo, pela adoção homoparental e pelos outros direitos que nos são extirpados todos os dias.

Os LGBTs precisam acordar. O bonde da história está passando, e nós não estamos nele. Os LGBT precisam acordar. E espero que isso aconteça logo. Espero que isso aconteça antes que uma lâmpada exploda na nossa cara, ou que um tiro atinja nossa barriga depois das paradas gays da vida.


William De Lucca Martinez

Jornalista

deluccamartinez@hotmail.com / www.twitter.com/delucca

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

- O breu.

A melancolia calada das luzes,
que brilham sem saber porque,
e que apagam sem aviso.

O breu inevitável.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

- Caio Fernando Abreu.

Tenho tentado aprender a ser humilde.
A engolir o nãos que a vida te enfia goela abaixo.
A lamber o chão dos palácios.
A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.

(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Entrevista - Estudo aponta que jovens apoiam casamento homossexual

Abaixo, o texto na íntegra, de uma matéria do Jornal Manchete do Vale, na qual concedi entrevista sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo.


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Estudo aponta que jovens apoiam casamento homossexual

Na amostragem geral, pesquisa ainda mostra resistência de boa parte da população

Uma Pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas Sociais da Universidade do Vale do Itajaí (IPS Univali) apontou que 53,5% da população dos municípios de Balneário Camboriú, Camboriú, Itajaí e Navegantes é contrária a liberação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O índice de pessoas que aprovam a oficialização da relação é de 35,52%.

Não têm opinião formada ou não sabem somam 10,98%. Os jovens, entretanto, não seguem essa tendência e mostram-se favoráveis. De acordo com o coordenador executivo do IPS, Sérgio Saturnino Januário, 40, o índice de aceitação foi maior entre os jovens de 16 a 24 anos. “Os jovens hoje crescem sendo o tempo inteiro bombardeados por informações a respeito do assunto. Eles assistem na televisão a paradas gays, filmes e novelas e aceitam isto mais normalmente, concordando com o debate do assunto. Os mais velhos geralmente não estabelecem esta relação porque foram educados de modo machista, por uma sociedade mais tradicional”, analisa.

O levantamento demonstrou que entre os jovens de 16 e 17 anos o índice de pessoas que disseram que o casamento homossexual deve ser legalizado chegou aos 59,26% contra 33,33% contrários. Já na faixa que vai dos 18 até 24 anos o índice cai, mas continua favorável com 54,41% de aceitação para 39,71% de pessoas contrarias.

O jornalista Willian de Lucca, 25, é homossexual e concorda com Sérgio no que diz respeito à falta de informação dos mais velhos. “A quantidade de informações a que os jovens estão expostos é maior. Eles se atualizam mais, e a intolerância mora na falta de informação. As crianças de hoje em dia já nascem expostas a informações sobre diversidade sexual, étnica, religiosa, e isto é benéfico para a construção de uma cultura de diversidade”, comenta.

A partir dos 25 anos os índices mudam, tornando-se contrários ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. A faixa entre os 60 e 69 anos passa a ser a menos tolerante, com 65,38% de pessoas contrárias para 22,53% de favoráveis. “Estas pessoas vêm de um tempo onde não havia informações claras sobre a homoafetividade, que na época era considerada um desvio de caráter, até uma doença, e por isso, existe o preconceito. Além do mais, as pessoas eram mais suscetíveis aos dogmas do cristianismo, que condena a prática homossexual”, declara Willian.

Pesquisa reacende debate

Willian contou que apesar de todas as informações, ainda existe preconceito contra homossexuais, principalmente vindo de adultos. “A gente ainda sofre, essencialmente, o preconceito velado, aquele que não é dito. Quando você assume certas posições, é normal que seja criticado. O problema não é quando criticam algo que você faz, mas algo que você é, porque ser gay não é uma escolha. Ninguém escolhe ser gay para sofrer preconceito, ser preterido socialmente”, desabafa, lembrando que além dos adultos, jovens desinformados também costumam ser preconceituosos.

Para Sérgio Saturnino a pesquisa ajuda a reacender o debate na sociedade, o que é muito importante. “Além dos números, a pesquisa coloca o tema na agenda pública, ela não vem sozinha, mas sim com a ajuda da imprensa que também aborda o tema. Assim, população se posiciona frente à pesquisa e se encaixa em um dos perfis”. Esta é a primeira pesquisa deste gênero, outra parecida deve ser feita daqui a 10 ou 12 meses, seguida por uma série de outros levantamentos para que se possa entender o comportamento da população. O erro amostral da pesquisa é de 2,38 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. A pesquisa completa está disponível no banco de informações do IPS Univali e pode ser conferida pelo www.univali.br/ips.

domingo, 10 de outubro de 2010

- Balão de mim.

Balão de mim,
cai na rua errada,
furado,
fodido,
pendurado num poste.

Estourei
por estar cheio demais
do vento errado.

Só sabe o que é sentir vazio,
quem um dia já esteve cheio.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

- Sem título.

Ele mente.
Os amigos nunca bastam.
Há sempre um buraco impreenchível,
uma olhar que nunca vem.

Há sempre a falta do amor que haverá pra sempre.

o amor nunca é. triste.

o amor nunca é triste.
a menos que ele não exista,
de fato,
ou por não ter começado,
de fato,
ou,
simplesmente,
por ter chegado ao fim.

o amor nunca é.
triste.